Sonhos grandes e pequenos. Alguns extravagantes do tamanho do mundo. Outros tão miudinhos que quase não se viam. Coloridos e monocromáticos. Sérios e divertidos. Assim, de todos os tipos. Raul gostava de observá-los, ali, sentado em sua poltrona, de frente para a estante, onde os dispunha com o maior cuidado, milimetricamente enfileirados. O rapaz cultivava, desde a infância, um prazer incomum, estranho talvez. Roubava sonhos. Não lhe importavam cor, textura, tamanho. Na verdade, quanto mais diferentes lhe parecessem, mais agradável seria fitá-los como se fossem seus. Sim, na ausência de sonhos próprios, desenvolvera a insólita habilidade de apropriar-se dos sonhos alheios. Sempre, porém, sem deixar-se perceber. E, assim, não importava se pertenciam a outrem, eram como se fossem seus. Na verdade, Raul não entendia que seu mesmo era o sonho de um dia poder sonhar.