domingo, 31 de agosto de 2008

Era um nome incomum. Do tipo que a gente só vê por aí nos grandes heróis. Ou nas paixões não-correspondidas, romances de pôr-do-sol que doem forte aonde quer que a gente vá. E assim foi. Um sábado, um cinema. Aquela noite não. Ele não estaria lá. Mesmo com todo o frio, com todo o desejo por um corpo que a aquecesse. Entrou na fila da bilheteria. Estava atrasada. Sempre atrasada. O atraso que uma vez tramou o fim. Trágico pra ela, blasé pra ele. No balcão, pegou um papel sem interesse algum, só pra disfarçar o tempo. Falava de um homem forte, mais forte do que tudo isso, feito bicho. Parecia herói. Mas, pra ela, tinha nome de amor platônico.

sábado, 23 de agosto de 2008




terça-feira, 19 de agosto de 2008

Saiu do trabalho às cinco. No ônibus, dormiu para esquecer a vida. Nenhum sorriso, só a angústia dos problemas. Ele não sabia. E doía não saber. Agora, até as pequenas coisas do dia-a-dia o machucavam. Não era um homem ruim. Estava apenas cansado. Essas coisas.

No caminho para casa, segurou a dorzinha de não poder chorar. Passos largos em busca de um refúgio. Na multidão, fantasiou lábios e ternuras. Se ao menos ela estivesse ao seu lado, talvez tudo parecesse mais fácil. Vida de merda. Detestava quando as coisas já não faziam mais sentido. Tudo tão perdido. Tudo tão sem ela.

segunda-feira, 18 de agosto de 2008

Biográfico

"Ria de mim, mas estou aqui parada, bêbada, pateta e ridícula, só porque no meio desse lixo todo procuro o verdadeiro amor. Cuidado comigo: um dia encontro."

domingo, 17 de agosto de 2008

ps: deixou o bilhete por debaixo da porta. Era um adeus tipo sei lá. Com palavras magras, essas que doem menos do que quando ditas. O que fazer? Sofreria, sofreriam. Mas a vida era feita assim de desencontros, dissabores. Custava-lhe agora só virar as costas, descer as escadas e ir. Ir para um não-sei-onde, onde o passado não pudesse alcançar, onde as lembranças não existissem. Onde o amor fosse nome de doença crônica, dessas que a gente toma vacina e tudo. Só por medo de amar.

sábado, 16 de agosto de 2008

If you think that a kiss is all in the lips
C'mon, you got it all wrong, man
And if you think that our dance was all in the hips
Oh well, then do the twist

quinta-feira, 14 de agosto de 2008

caindo de amores pelo Caio.


Para uma avenca partindo

Olha, antes do ônibus partir eu tenho uma porção de coisas pra te dizer, dessas coisas assim que não se dizem costumeiramente, sabe, dessas coisas tão difíceis de serem ditas que geralmente ficam caladas, porque nunca se sabe nem como serão ditas nem como serão ouvidas, compreende? Olha, falta muito pouco tempo, e se eu não te disser agora talvez não diga nunca mais, porque tanto eu como você sentiremos uma falta enorme dessas coisas, e se elas não chegarem a ser ditas nem eu nem você nos sentiremos satisfeitos com tudo que existimos, porque elas não foram existidas completamente, entende, porque as vivemos apenas naquela dimensão em que é permitido viver, não, não é isso que eu quero dizer, não existe uma dimensão permitida e uma outra proibida, indevassável, não me entenda mal, mas é que a gente tem tanto medo de penetrar naquilo que não sabe se terá coragem de viver, no mais fundo, eu quero dizer, é isso mesmo, você está acompanhando meu raciocínio? Falava do mais fundo, desse que existe em você, em mim, em todos esses outros com suas malas, suas bolsas, suas maçãs, não, não sei porque todo mundo compra maçãs antes de viajar, nunca tinha pensado nisso, por favor, não me interrompa, realmente não sei, existem coisas que a gente ainda não pensou, que a gente talvez nunca pense, eu, por exemplo, nunca pensei que houvesse alguma coisa a dizer além de tudo o que já foi dito, ou melhor pensei sim, não, pensar propriamente dito não, mas eu sabia, é verdade que eu sabia, que havia uma outra coisa atrás e além das nossas mãos dadas, dos nossos corpos nus, eu dentro de você, e mesmo atrás dos silêncios, aqueles silêncios saciados, quando a gente descobria alguma coisa pequena para observar, um fio de luz coado pela janela, um latido de cão no meio da noite, você sabe que eu não falaria dessas coisas se não tivesse a certeza de que você sentia o mesmo que eu a respeito dos fios de luz, dos latidos de cães, é, eu não falaria, uma vez eu disse que a nossa diferença fundamental é que você era capaz apenas de viver as superfícies, enquanto eu era capaz de ir ao mais fundo, você riu porque eu dizia que não era cantando desvairadamente até ficar rouca que você ia conseguir saber alguma coisa a respeito de si própria, mas sabe, você tinha razão em rir daquele jeito porque eu também não tinha me dado conta de que enquanto ia dizendo aquelas coisas eu também cantava desvairadamente até ficar rouco, o que eu quero dizer é que nós dois cantamos desvairadamente até agora sem nos darmos contas, é por isso que estou tão rouco assim, não, não é dessa coisa de garganta que falo, é de uma outra de dentro, entende? Por favor, não ria dessa maneira nem fique consultando o relógio o tempo todo, não é preciso, deixa eu te dizer antes que o ônibus parta que você cresceu em mim de um jeito completamente insuspeitado, assim como se você fosse apenas uma semente e eu plantasse você esperando ver uma plantinha qualquer, pequena, rala, uma avenca, talvez samambaia, no máximo uma roseira, é, não estou sendo agressivo não, esperava de você apenas coisas assim, avenca, samambaia, roseira, mas nunca, em nenhum momento essa coisa enorme que me obrigou a abrir todas as janelas, e depois as portas, e pouco a pouco derrubar todas as paredes e arrancar o telhado para que você crescesse livremente, você não cresceria se eu a mantivesse presa num pequeno vaso, eu compreendi a tempo que você precisava de muito espaço, claro, claro que eu compro uma revista pra você, eu sei, é bom ler durante a viagem, embora eu prefira ficar olhando pela janela e pensando coisas, estas mesmas coisas que estou tentando dizer a você sem conseguir, por favor, me ajuda, senão vai ser muito tarde, daqui a pouco não vai mais ser possível, e se eu não disser tudo não poderei nem dizer e nem fazer mais nada, é preciso que a gente tente de todas as maneiras, é o que estou fazendo, sim, esta é minha última tentativa, olha, é bom você pegar sua passagem, porque você sempre perde tudo nessa sua bolsa, não sei como é que você consegue, é bom você ficar com ela na mão para evitar qualquer atraso, sim, é bom evitar os atrasos, mas agora escuta: eu queria te dizer uma porção de coisas, de uma porção de noites, ou tardes, ou manhãs, não importa a cor, é, a cor, o tempo é só uma questão de cor não é? Por isso não importa, eu queria era te dizer dessas vezes em que eu te deixava e depois saía sozinho, pensando também nas coisas que eu não ia te dizer, porque existem coisas terríveis, eu me perguntava se você era capaz de ouvir, sim, era preciso estar disponível para ouvi-las, disponível em relação a quê? Não sei, não me interrompa agora que estou quase conseguindo, disponível só, não é uma palavra bonita? Sabe, eu me perguntava até que ponto você era aquilo que eu via em você ou apenas aquilo que eu queria ver em você, eu queria saber até que ponto você não era apenas uma projeção daquilo que eu sentia, e se era assim, até quando eu conseguiria ver em você todas essas coisas que me fascinavam e que no fundo, sempre no fundo, talvez nem fossem suas, mas minhas, e pensava que amar era só conseguir ver, e desamar era não mais conseguir ver, entende? Dolorido-colorido, estou repetindo devagar para que você possa compreender, melhor, claro que eu dou um cigarro pra você, não, ainda não, faltam uns cinco minutos, eu sei que não devia fumar tanto, é eu sei que os meus dentes estão ficando escuros, e essa tosse intolerável, você acha mesmo a minha tosse intolerável? Eu estava dizendo, o que é mesmo que eu estava dizendo? Ah: sabe, entre duas pessoas essas coisas sempre devem ser ditas, o fato de você achar minha tosse intolerável, por exemplo, eu poderia me aprofundar nisso e concluir que você não gosta de mim o suficiente, porque se você gostasse, gostaria também da minha tosse, dos meus dentes escuros, mas não aprofundando não concluo nada, fico só querendo te dizer de como eu te esperava quando a gente marcava qualquer coisa, de como eu olhava o relógio e andava de lá pra cá sem pensar definidamente e nada, mas não, não é isso, eu ainda queria chegar mais perto daquilo que está lá no centro e que um dia destes eu descobri existindo, porque eu nem supunha que existisse, acho que foi o fato de você partir que me fez descobrir tantas coisas, espera um pouco, eu vou te dizer de todas as coisas, é por isso que estou falando, fecha a revista, por favor, olha, se você não prestar muita atenção você não vai conseguir entender nada, sei, sei, eu também gosto muito do Peter Fonda, mas isso agora não tem nenhuma importância, é fundamental que você escute todas as palavras, todas, e não fique tentando descobrir sentidos ocultos por trás do que estou dizendo, sim, eu reconheço que muitas vezes falei por metáforas, e que é chatíssimo falar por metáforas, pelo menos para quem ouve, e depois, você sabe, eu sempre tive essa preocupação idiota de dizer apenas coisas que não ferissem, está bem, eu espero aqui do lado da janela, é melhor mesmo você subir, continuamos conversando enquanto o ônibus não sai, espera, as maçãs ficam comigo, é muito importante, vou dizer tudo numa só frase, você vai ......... ............ ............. ............ .......... ........... ............. ............ ............ ............ ......... ........... ............ ............ sim, eu sei, eu vou escrever, não eu não vou escrever, mas é bom você botar um casaco, está esfriando tanto, depois, na estrada, olha, antes do ônibus partir eu quero te dizer uma porção de coisas, será que vai dar tempo? Escuta, não fecha a janela, está tudo definido aqui dentro, é só uma coisa, espera um pouco mais, depois você arruma as malas e as botas, fica tranqüila, esse velho não vai incomodar você, olha, eu ainda não disse tudo, e a culpa é única e exclusivamente sua, por que você fica sempre me interrompendo e me fazendo suspeitar que você não passa mesmo duma simples avenca? Eu preciso de muito silêncio e de muita concentração para dizer todas as coisas que eu tinha pra te dizer, olha, antes de você ir embora eu quero te dizer quê.


Caio Fernando Abreu, em O Ovo Apunhalado

domingo, 10 de agosto de 2008

''A vida é agora, aprende.''









Ando sem palavras, sem idéias, sem vontade.
ESTÍMULOS. Nervosos, literários, sexuais, de vida.
Qualquer coisa que me faça ir além.

sábado, 9 de agosto de 2008

fugindo um pouco da rebeldia rock and roll

 Vanessa da Mata - Amado

sexta-feira, 8 de agosto de 2008

Entrou no ônibus. Yakult, all star sujo, suéter cinza, Nelson Rodrigues nas mãos. Procurou alguma trilha sonora para a vida. Incrível acreditar que aos 14 queria morrer aos 27. Vinte e sete, idade de Hendrix, Morrison, Joplin e Cobain. Depois então, alguns anos a mais nas costas. Agora, incrível acreditar que se fazia mulher. Ainda uma ultra-romântica. Não sabia da morte. Não pensava no fim. O que lhe importava era viver. E como a vida se pintava de difícil, quando, na verdade, devia ser fácil, fácil. É coisa do humano complicar tudo, forçava-se a acreditar. Mas, naquela instante, não tinha culpa pelo o que a vida lhe fazia. Tolices, estupidez. Palavras ásperas. Pode alguém sentir falta de algo que não é seu? Ela sentia.

quinta-feira, 7 de agosto de 2008

Depositório de pensamentos
Idéias à procura
Dois pontos, alguém fala
Eu sou muito menos do que se vê
Pode acreditar que sim
Não sou forte, não sou gente
Eu não sou ninguém
E ninguém me conhece

quarta-feira, 6 de agosto de 2008

Sabe qual é o meu maior sonho agora? Dançar bem ali no meio, no cano do metrô. Imagina só. Tudo escurinho. Lingerie de oncinha. E Jack White cantarolando "I just don't know what to with myself" logo atrás de mim. Então eu faço minha cara super sexy, baby. E juro que te arrumo um lugar, arrumo sim.

terça-feira, 5 de agosto de 2008

Domingo até parece fazer rima com reminiscências. O dia mais cinzento da semana, quando a nostalgia resolve cantar os anos que não voltam mais. É isso. A minha noite de domingo foi uma volta ao passado. Eu estava ali sentada na rua, a rua em que nasci, cresci e fiz histórias. E sorríamos ao rever a aurora de nossas vidas.

Lembrei o meu casamento aos oito anos, o arroz, a aliança feita de chiclete e as sessões de Rei Leão com meu primeiro encanto. Lembrei o primeiro beijo, o choque entre os dentes e a mordida nos lábios sem-querer-querendo quando não se sabe beijar. Lembrei o primeiro amor, o aprender a amar e a esquecer. Lembrei os anos rebeldes, as tardes recheadas de licor de damasco com maracujá em que passávamos ao som de Nirvana, os cortes nos braços nos momentos de raiva, o ato suicida envolvendo vodka e novalgina. Lembrei os dias rock and roll em que só queríamos ser cool e tirar um som com nossas guitarras. Lembrei as noites de sueca com os amigos na rua. Amigos que viraram a esquina e não voltaram mais. Pessoas que entraram e saíram da minha vida. Mas que deixaram o que há de melhor, as boas lembranças.

Então eu sorri ainda mais aqui dentro, pois carrego comigo o peso de vinte anos de lembranças. E mesmo os momentos que me pareciam trágicos aos quatorze anos, hoje os vejo como motivo de piada.

Nesse dia, então, eu adormeci sorrindo agarrada às minhas lembranças, sabendo que, daqui a vinte anos, vou sorrir ainda mais.

segunda-feira, 4 de agosto de 2008

Filosofia de bar

A vida é como um All Star: gasta rápido, rápido.

domingo, 3 de agosto de 2008

"Luana, minha querida, a melhor coisa do mundo é amar. A segunda melhor é viajar, a terceira é comprar e a quarta, comer. Você poderia se perguntar: 'e dormir? não entra na lista?' Mas lembre-se, quando a gente dorme, a vida passa e não se vive! Beijos, a mamãe"

sabedoria de mamãe

sábado, 2 de agosto de 2008

Odeio essa necessidade pungente típica do humano.
Odeio ser humano.
Odeio.

sexta-feira, 1 de agosto de 2008

Hoje eu me vi numa tela de cinema. Sim, eu estava lá. Não pelo esmalte vermelho, pela blusa de bolinhas ou pela cerveja na mão. Eu estava lá pelos rabiscos, pela necessidade em escrever, pela busca por respostas. Eu estava lá pelo vazio, pelo peso da solidão. Pelos tropeços, por todo o desamor, a descrença no homem e no mundo. Eu estava lá pela cicatrizes que a vida nos deixa, pela palidez do real. E, muito mais, eu estava lá pelo desencanto que é viver.